domingo, 19 de dezembro de 2010

Sem-Nome/Sê-Nome

Pergunto então:

"Quer o recibo sem nome?"

"Sim", responde. "Pode pôr no mê-nome."

Ah, percebo depois de sabiamente me calar: ele ouvira "Quer o recibo em sê-nome?". E eis como o sotaque surge em mim, mesmo sem que o tenha.

Venham os Diabos

E então ele entra. Sujo, mal-cheiroso, sem pingo de banho de vergonha. Já não vale a pena tentar, tentar disfarçar. As tatuagens nas mãos, o discurso deslizante.

"Seringa de insulina?". Consulto, penso, e espero. "Sim, sim, tenho. Só um momento."

E eis como em algumas, raríssimas, situações, a chaga que é a Diabetes até aparece como alternativa menos grave. Mas que sabemos nós afinal? Talvez ele volte limpo, talvez lave as tatuagens dos braços, talvez ainda possa ser uma nova-mesma-pessoa.

"É tudo?"